Assessora de Flávio Bolsonaro negociou emenda de R$ 199 mil com condenado pelo caso Marielle, aponta PF

Foto: Reprodução

Diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF) revelam que Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar do gabinete do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), negociou em 2023 a liberação de uma emenda no valor de R$ 199 mil com Robson Calixto Fonseca, o "Peixe". Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por integrar organização criminosa no processo sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

As informações, divulgadas pelo Estadão nesta segunda-feira (21), têm como base mensagens encontradas no celular de "Peixe" — onde a assessora constava salva como "Fafá Flávio Bolsonaro". As tratativas tinham como alvo o direcionamento de verbas ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), cujo repasse foi efetivado em 29 de novembro de 2023, segundo dados do Portal da Transparência.

Troca de mensagens e aproximação política

De acordo com as investigações, a interação teve início em outubro de 2023, quando Calixto questionou a assessora sobre a possibilidade de ajuda do senador. Maria de Fátima orientou o envio de um pedido formal e, em seguida, perguntou sobre a relação de "Peixe" com o então deputado Chiquinho Brazão. Diante da resposta afirmativa, ela enviou um convite para um evento oficial da Polícia Militar do Rio de Janeiro, recomendando: "Leva o deputado".

A apuração indica que a funcionária também orientou Calixto a reforçar o pleito pessoalmente com Flávio Bolsonaro durante um encontro presencial. Nos meses seguintes, Calixto manteve as cobranças para "não terminarmos nosso projeto", recebendo garantias de acompanhamento da assessora.

Operação Emendatio e suspeita de desvios

O caso foi aprofundado no âmbito da Operação Emendatio, deflagrada pela Polícia Federal em julho para apurar o desvio de emendas parlamentares repassadas a organizações da sociedade civil no Rio de Janeiro. A ação cumpriu dois mandados de prisão, 21 de busca e apreensão e determinou o bloqueio de R$ 100 milhões em bens. O senador Flávio Bolsonaro não foi alvo de mandados.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) anexada ao inquérito apontou que parte das verbas destinadas ao Ifop acabou utilizada para quitar honorários de um escritório de advocacia pertencente aos próprios gestores do instituto, configurando indício de desvio de finalidade.

A PF apura ainda o suposto pedido feito pela assessora a Calixto para obter quatro ingressos em um camarote no Carnaval do Rio de Janeiro. O episódio é analisado pelos investigadores como potencial solicitação de vantagem indevida.

Condenações e o outro lado

Robson Calixto foi condenado pelo STF em fevereiro por integrar organização criminosa armada. Na mesma ação penal, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão foram apontados como mandantes das execuções de Marielle e Anderson.

Em nota ao Estadão, Flávio Bolsonaro declarou que a destinação da emenda seguiu os trâmites legais e critérios técnicos do Ministério do Esporte. O parlamentar afirmou que a entidade prestou contas com notas fiscais, devolveu os saldos não utilizados e ressaltou que a responsabilidade pela aplicação do dinheiro é da instituição beneficiada. O candidato preferiu não comentar os diálogos entre sua funcionária e Calixto.

A assessora Maria de Fátima Bezerra Castro não respondeu aos contatos da imprensa. A defesa de Calixto sustentou que ele não atuou no episódio, a defesa de Domingos Brazão negou envolvimento e os advogados de Chiquinho Brazão informaram desconhecer a investigação.

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