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Quanto vale um patrimônio? A desvalorização de quem mantém o vivo o São João.

Arte: Blog Falando Francamente/IA

Esta semana, a notícia do cancelamento de 15 shows do cantor Flávio José na Bahia gerou uma série de debates sobre a interferência do Ministério Público na redução dos valores pagos aos artistas. O que mais chama atenção, no entanto, é a justificativa apresentada pelo órgão ao afirmar que seus critérios consideram "a notoriedade e a projeção dos artistas, reconhecendo que atrações de maior relevância no mercado" podem justificar valores superiores.

Mas de qual mercado estamos falando?

As festas juninas foram reconhecidas pela Lei Federal nº 14.555/2023 como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Sendo assim, não deveriam ser considerados artistas de notoriedade e relevância justamente aqueles que ajudaram a construir essa tradição? Forrozeiros de pé de serra, bandas de pífanos, grupos de samba de coco, quadrilhas juninas, repentistas e tantas outras manifestações culturais que mantêm viva a identidade do São João.

São esses artistas que carregam a memória, a história e a essência da festa. São eles que garantem que o São João continue sendo São João.

Por que o cachê de R$ 350 mil de Flávio José é considerado elevado, enquanto artistas sem qualquer relação com a tradição junina recebem dos cofres públicos R$ 800 mil, R$ 900 mil e até R$ 1,5 milhão? Esses valores não merecem o mesmo nível de questionamento?

E vamos além.

Por que o olhar tão atento dos órgãos de controle não se volta também para a base da pirâmide cultural? Por que não observa os cachês pagos aos artistas da terra que sustentam, de fato, as tradições juninas?

Quantos trios de forró pé de serra, com mais de 30 ou 40 anos de carreira, recebem hoje valores que mal cobrem as despesas de transporte, alimentação e equipe? Quantos grupos tradicionais são contratados por R$ 3 mil, R$ 4 mil ou R$ 5 mil para apresentações que representam décadas de dedicação à cultura popular?

Por que não há a mesma preocupação quando a desvalorização atinge justamente aqueles que mantêm viva a tradição?

O problema não está apenas nos cachês milionários. O problema está na inversão de valores.

Enquanto artistas que representam a essência do São João precisam justificar sua importância e, muitas vezes, mendigar apresentações, atrações sem vínculo com a cultura junina ocupam cada vez mais espaço nas programações e nos orçamentos públicos.

Se a Constituição Federal determina que é dever do poder público proteger e promover o patrimônio cultural brasileiro, quem irá defender aqueles que preservam essa herança cultural quando ela é deixada em segundo plano?

Porque proteger o São João não significa apenas fiscalizar contratos. Significa garantir que aqueles que construíram essa tradição continuem tendo espaço, reconhecimento e dignidade.

E fica uma última reflexão: por que o Ministério da Cultura e o Ministério do Turismo não destinam mais recursos às cidades que investem na preservação das tradições juninas, em vez de premiar com recursos vultuosos apenas quem realiza os MAIORES EVENTOS?

De que adianta criar leis reconhecendo os festejos juninos e o forró como patrimônio cultural do Brasil se não existem mecanismos eficazes para proteger aqueles que mantêm esse patrimônio vivo?

Patrimônio não é apenas aquilo que se reconhece em uma lei. Patrimônio é aquilo que se preserva, valoriza e transmite às futuras gerações. 

Amannda Oliveira

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