segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Transversal Frevo Orquestra registra travessia do gênero por novos formatos, em primeiro CD

Foto: Roberto Riegert

Transversal: aquilo que cruzaque atravessa, perpassa. Na música, a palavra, ou conceito, define um dos tipos de um instrumento ancestral: a flauta. Inicialmente feita de madeira, a flauta transversal, ou transversa, é por isso incluída como instrumento do grupo das madeiras. Das músicas primitivas às medievais; dos concertos eruditos ao rock progressivo, passando por ritmos regionais nordestinos, a flauta ganhou um novo protagonismo a partir do trabalho do músico César Michiles.

Nascido em Pernambuco, com formação erudita e prática musical nos gêneros populares, o flautista, arranjador, produtor e diretor musical está lançando o primeiro CD da Transversal Frevo Orquestra (TFO), uma orquestra de frevo montada e regida por ele, a partir de 2018, em que o frevo instrumental define o tema do repertório e as flautas transversas estão em primeiro plano, promovendo uma travessia por novas texturas e sonoridades desse gênero tão sofisticado da música brasileira.

O lançamento oficial do CD acontece no dia 28, quando estará disponível nas plataformas digitais para streaming (Spotify e iTunes). Haverá também um show no dia 31 de janeiro, no Teatro Apolo (Recife Antigo), dentro da programação do Janeiro de Grandes Espetáculos.

A Orquestra vem chamando atenção e ganhando o respeito tanto dos puristas do frevo quanto daqueles que apreciam e praticam a tão falada “renovação” do gênero. Antes de montar a orquestra, César Michiles já vinha construindo um cenário favorável a esta inovação, se assim podemos chamar (afinal o novo sempre vem, o problema é sempre a difusão). Após uma carreira musical de mais de vinte anos, lançou-se como compositor de frevos no tradicional concurso de músicas carnavalescas promovido pela Prefeitura do Recife. O frevo já corria em suas veias, pois cresceu sob a orientação do pai, Jota Michiles, um veterano e conceituado compositor de frevos-canção do Recife. César rendeu-se ao frevo e, inspirado, passou a compor a partir destes festivais.

Em 2008, levou o primeiro lugar na categoria “frevo de rua”, como são chamados os frevos instrumentais, com a música “Pega Ladrão”.  Em 2012, mais um troféu principal, com “Esse é o Tom”. E em 2014, mais uma classificação, com “Pipocando”. Não tinha ainda a dimensão, mas estava ali quebrando um paradigma do frevo, pois ao interpretar essas composições, posicionava-se com sua flauta, como um solista, à frente da tradicional orquestra de metais, com seus saxofones, trompetes e trombones formando a base da metaleira. “O que a flauta estava fazendo ali na frente?”, perguntavam os que estavam acostumados a um só modo das orquestras tocarem o frevo.

Aliás, esse mesmo concurso de frevo contribuiu para que outros instrumentistas quebrassem com essa estrutura padrão da execução do frevo. O público passou a ouvir frevo com solos de sanfona, guitarra e, claro, a flauta de César. Uma porta aberta para tantos caminhos que o frevo precisa seguir para não ser mais – como bem sabem os executores desse ritmo – uma música sazonal, de carnaval, de sobe e desce ladeiras de Olinda. Sim, não se compara. Ali é frevo rasgado, com desafinação e tudo. Aqui, com César (e outros tantos que chegaram antes dele, como maestro Spok, e outros que certamente virão) é frevo para apreciar em qualquer época do ano, em qualquer lugar. No carnaval ou no teatro. Mais com os ouvidos, do que com os pés. Agora com uma diferença: o protagonismo das flautas.

REPERTÓRIO E CONCEITO - “A concepção desse projeto é trazer a certeza de que o frevo, como linguagem musical, pode sim ser executado de várias formas , texturas e sonoridades, e que não se trata apenas de um CD de frevo para servir de trilha sonora pro nosso carnaval, mas para, de uma vez por todas, ser entendido como música instrumental brasileira”, diz César.

A novidade vai além do formato e atinge também as composições: todas as músicas da TFO são inéditas, de compositores, pode-se dizer, novatos no frevo. “Frevo Encantado” foi uma surpresa enviada pelo pianista da orquestra, Romero Medeiros (que nunca antes havia composto um frevo). Depois vem “Esse é o Tom”, música de César, vencedora do supracitado concurso da Prefeitura do Recife. “Passo a Passo” é do guitarrista da TFO, Júnior Xanfer. César também registra “Pipocando”. Beto Ortis é um exímio acordeonista pernambucano, também vencedor, como César, dos concursos de frevo do Recife. Ele compôs um frevo construído a partir da sanfona, que César batizou de “Transversalizando”.

Do guitarrista pernambucano Bráulio Araújo veio “Bomba de Corda”. Do bandolinista Hamilton de Holanda (com quem César já tocou em outros projetos) foi gravada a inédita (feita exclusivamente para a Orquestra), “A Saudade vai Passar”. César arranja também para a TFO mais uma inédita de sua lavra, intitulada “Eu cá, tu lá”, uma homenagem à memória do maestro Nunes, um dos compositores mais importantes do frevo pernambucano, falecido em 2016. E finaliza o CD com “Rasgando a Seda”, de Zé da Flauta, músico que inspirou César a escolher a flauta como instrumento, no início de sua formação musical, ainda na infância.

É neste repertório e turma de compositores que reside o principal eixo do primeiro CD da Transversal Frevo Orquestra. “Colocar as flautas num lugar que não existia para elas dentro das orquestras de frevo, como um instrumento de metal, consequentemente os trompetes e trombones fazem uma cama para as flautas. Mudamos os conceitos dos arranjos, para dar essa evidência ao naipe que agora é das flautas”, explica o músico.


SERVIÇO:
Transversal Frevo Orquestra – Lançamento do primeiro CD
Quando - 31 de janeiro, às 20h
Onde – Festival Janeiro de Grandes Espetáculos (Teatro Apoio, Recife Antigo)
Ingressos: R$ 40,00

Valor do CD na hora do show: R$ 15,00


Michelle Assunção


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