sábado, 9 de junho de 2018

Coluna Garanhuns: Memórias e Inspirações. Elogio a Cecília Rodrigues

Imagem: Acervo Enos Moura

ELOGIO A CECÍLIA RODRIGUES

*Ígor Cardoso 

Retomando o tema da “Cidade Mulher”, gostaria de, na crônica de hoje, render um preito de reverência à memória de uma das grandes mulheres de Garanhuns, do Nordeste e do Brasil em todos os tempos, legítima herdeira espiritual das virtudes de nossa fundadora, a mameluca Simoa Gomes de Azevedo. Meu elogio de hoje é dedicado a Cecília Rodrigues (1885-1968).

Paraibana de Lucena, Cecília veio para Garanhuns ainda na adolescência, a fim de estudar na primitiva escolinha evangélica então dirigida pelo vigoroso pastor Martinho de Oliveira. Regressaria à terrinha adotiva já adulta, em 1908, aos 20 e poucos anos, convocada para reanimar o educandário, agora sob a designação de “Colégio Quinze de Novembro”, juntamente com os pastores George Henderlite e Jerônimo Gueiros.

Inteligentíssima, mulher de caráter e de têmpera, de iniciativa poderosa e de forte opinião, embora muito bem-humorada, dotada de um temperamento quase galhofeiro, Cecília tinha a rara habilidade de, como diria o amigo Jerônimo, tornar-se o "centro de atração social" de onde quer que estivesse.

Assim foi naquela Garanhuns tão conservadora dos anos 1900-1910, pré-Hecatombe. Surpreendentemente, ali encontramos a professora de línguas e humanidades, e depois diretora do pioneiro Colégio Quinze, a roubar a cena, fosse desbancando os homens como oradora de eventos oficiais, fosse arregimentando companheiras e empolgando audiências em defesa dos direitos das mulheres. Todos queriam ouvir a destemida e sagaz Cecília!

Na transição entre 1909 e 1910, o Brasil se dividia entre as campanhas do militar Hermes da Fonseca e do civil Rui Barbosa à Presidência da República. Cecília, inconformada com não poder votar em Rui, o herói intelectual de toda a sua geração, insurgia-se constantemente contra a flagrante injustiça. Se ela, como educadora, preparava os rapazes, habilitando-os a serem cidadãos e eleitores, porque a ela própria não lhe era facultado expressar-se nas urnas?

Mas Cecília era Cecília, e protestar verbalmente não bastava; era preciso mais ação: correndo diversos riscos, eis que envia, disfarçadamente, uma requisição eleitoral para o juiz Maurício Wanderley, pai de alunos seus, imaginando – ela própria confessaria – que a distração e o volume de serviço do magistrado o fariam despachar favoravelmente o pedido. Queria fazer barulho, atrair atenções para a sua causa, e não mediu esforços! Recebeu, em resposta, o jocoso despacho: “Reforme a Constituição e depois, se quiser, volte”.

Em 1911, os jornais do Recife noticiavam que a elite garanhuense afluíra em peso aos salões da Sociedade 02 de Março, ansiosa por ouvir a jovem diretora do Quinze palestrar sobre o tema: “A mulher brasileira precisa de uma reforma!”. “Fez um estudo da mulher atual”, informavam, “demonstrando brilhantemente, com uma argumentação segura e cabal, o atraso em que se acha a educação feminina”. Ao final, “incitou todas as senhoras presentes a fazerem causa comum, para assim conseguirem o grande ideal da emancipação da mulher”, sendo freneticamente ovacionada.

Em 1913, ainda constituía a sensação da cidade, sendo a única mulher convidada a ocupar a mesa de honra dos eventos que comemoravam o início das obras das estradas de rodagem para Águas Belas e Correntes. Convidada a falar, insatisfeita em desbancar os 27 companheiros de mesa, não perdeu a chance de pedir a um parlamentar presente que, na alta Câmara do país, “agitasse a debatida questão feminista e defendesse os direitos da mulher”.

Cecília já era uma das glórias de Garanhuns, terra que sempre prestigiou, para aqui regressando já velhinha, bem próxima de falecer, nos anos 1960, por intermédio de Enos Moura. Após o matrimônio com o rev. Cícero Siqueira, continuaria a ser o “centro de atração social” em Canhotinho, até 1929, e em Presidente Soares-MG, onde viria a óbito em um icônico “Dia do Professor” – ou melhor, “da Professora”.

Em Canhotinho, fez tanta diferença para o brilho radiante das comemorações do Centenário da Independência, em 1922, posteriormente fixadas em livro, que uma de suas alunas, relembrando aqueles gloriosos tempos, assinalaria que a inesquecível mestra era, sem dúvida, “uma mulher, pelo menos, 20 anos à frente de seu tempo”.

No Sudeste, por sua vez, sua obra como educadora e líder evangélica, sobretudo à frente do Colégio Evangélico local e da Sociedade Auxiliadora Feminina nacional, levá-la-iam a ser agraciada com o título de cidadã honorária de Minas Gerais e com a prestigiosa medalha Tiradentes. Por inspiração sua, também seria criado o “Dia da Mulher Presbiteriana”, a ela dedicado.
À inspiradora mocidade de Cecília, então dividida entre Garanhuns e Canhotinho, remontam estes versos, que são uma belíssima ode à mulher brasileira, e que dedico a todas às valorosas conterrâneas de nossa poética “Cidade Mulher”, do Nordeste e do Brasil:

A UMA RENASCIDA

Sinto ver-te mulher. Desde hoje, os usos
Te vão tiranizar. Por toda a vida,
Sofrerás os estúpidos abusos
A que já tua mãe foi submetida.

Por preceitos morais, terás confusos
Anexins. Uma norma incompreendida,
Dada há séculos por cérebros obtusos,
Seguirás! Ai daquela que a transgrida!

Vedando-te do mal a informação,
Esperam ver-te o espírito aprestado
Contra a mais traiçoeira tentação.

Depois, diga a Justiça o que disser:
Nenhum homem consente em ser julgado
Pelo código de honra da mulher.

Cecília Rodrigues, 1916



*Ígor Cardoso é escritor da Academia de Letras e pesquisador do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns.

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