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“O Silêncio da Noite” faz ode à poesia e a seus discípulos no sertão nordestino

março 05, 2018 Blog Falando Francamente 0 Comments


Nos rincões do sertão entre Pernambuco e Paraíba reza a lenda:  quem bebe da água do Rio Pajeú, vira poeta. Definindo o cotidiano das pessoas, nas festas, residências, nos mercados, relembrando histórias de cantorias, em grandes respostas poéticas e dissertando sobre o sentimento, a poesia é onipresente e primordial. E é ela a protagonista em O Silêncio da Noite é que tem sido Testemunha de Minhas Amarguras. O filme tem estreia nacional marcada dia 15 de março, em algumas cidades do Brasil, como Recife, São Luis, Curitiba e um circuito alternativo no interior de Pernambuco.

Finalista entre os dez melhores filmes da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - São Paulo, SP (2016), o longa foi rodado nas cidades de Ouro Velho e Prata (PB) e da pernambucana São José do Egito, tomada como berço imortal da poesia. O documentário passeia pela região, revelando a tradição herdada por várias gerações, vidas pautadas pela poesia e a peculiar e orgulhosa prática diária de poetas, sonetistas, cantadores e violeiros que fazem de métricas e rimas disciplinadas um modo de vida.

O Silêncio da Noite é a segunda produção em longa-metragem de Petrônio Lorena (de O Gigantesco Imã), diretor e também compositor e produtor musical para trilhas. Nascido em Serra Talhada, localizada a duas horas de São José do Egito, desde a infância se interessava pela poesia, pela composição de músicas, sempre em contato com os poetas da região. Em 2010 deu o impulso inicial, realizando um profundo trabalho de pesquisa e de desenvolvimento de roteiro, apoiado pelo Funcultura. Filmou aos poucos, em muitas idas ao sertão, até 2015.

“O que eu acho mais legítimo do documentarista é sempre voltar àquilo no qual está trabalhando, criar um envolvimento. Eu sempre retornava à região. Esse envolvimento fez com que a poesia, que já estava presente, entrasse mais ainda dentro de mim; não a métrica, não o saber fazer poético, mas o sentimento. Lá tem muitos que dizem: ‘o verdadeiro poeta é o outro’. E o outro é aquele que sente. Então o verdadeiro poeta é o que sente, o que foi transformado”, explica o diretor Petrônio Lorena.

Foto:Roberto Iuri

A taciturna frase que dá nome ao filme faz alusão a um poema, cuja autora é uma das figuras mais interessantes retratadas no longa: Severina Branca, dita a “Eleonor Rigby do Nordeste”. Musa e prostituta, poetisa e boêmia, Severina encantava os poetas da região, dando-lhes ‘motes’ rebuscadíssimos, cantados por eles, falando não apenas da vida dela, mas das amarguras de ser poeta.  “O título refere-se também à dor e à alegria de ser poeta; da cumplicidade da madrugada na criação desses versos num sertão conservador e da utilidade social que a poesia traz a essas pessoas”, completa Petrônio.

"Meus filhos são passarinhos/ Que vivem dos meus gorjeios/ Eu para encher os seus papos/ Cato grãos em chãos alheios/ E só boto um grão no meu/ Quando vejo os deles cheios."
(Louro)

“Se a coruja é minha companheira
O relógio se marca meia-noite
Ela sai pra fazer o seu açoite
Sai de dentro da sua cumeeira
Me acompanha entremeio
A fumaceira de uma neve que cai pela cidade
E o fantasma cinzento da saudade
Sai de dentro das furnas mais escuras
Onde existem tamanhas rachaduras
Que o tempo marcou sem ter pedido
Que o silêncio da noite é que tem sido
Testemunha das minhas amarguras”
(Severina Branca)

"Dizem que à princípio/ O caos pesou/ E a luz surgiu do choque das camadas/ Tais narrativas são falsificadas/ Não há quem saiba como começou/ Se as massas foram impulsionadas/ Tem uma força que as impulsionou/ Pergunto eu por quem foram tocadas/ E fico como um sábio uma vez ficou/ Celula, ovo, do nada em transição/ Gameta de pequena evolução/ Crepúsculo de caótica procedência/ Originária da microssomia/ Desenvolvendo a macrossometria/ Da monstruosidade da existência."
(Biu de Crisanto)

O diretor
Formado em Radialismo, Petrônio Lorena, é diretor de curtas premiados como “Santa Helena em Os Phantasmas da Botija” (2004), "O som da Luz do Trovão"(2005) - - ambos em 35mm e co-dirigidos por Tiago Scorza – e “Faço de Mim o que quero”, co-dirigido por Sérgio Oliveira; e da ficção em 35mm “Calma Monga, Calma!” (2011)
Em 2014, estreia seu primeiro longa-metragem com “O Gigantesco Imã”, co-dirigido também por Tiago Scorza. Atua também nas funções de roteirista e produtor dos filmes que assinou a direção. Paralelamente, desenvolve o trabalho de compositor, diretor e produtor musical de trilhas para cinema, recebendo dois prêmios de melhor trilha sonora (Festival de Triunfo e CINE PE, em 2015) por “O Gigantesco Imã”; e integra o coletivo musical “Petrônio e as Criaturas”.

Ficha técnica:

Elenco (personagens)
Severina Branca, Jorge Filó, João Badalo, Antônio Marinho, Ésio Rafael,Zé Rocha, Greg Marinho, Nõe de Job, Expedito Vaqueiro, Lamartine Passos, Zé de Cazuza, Cícero Bernardes, Job Patriota, Didi Patriota, Antenor Cazuza, Marquinhos da Serrinha, Paulo Barba, Romero Cazuza, Carlinhos da Prata, René Cavalcanti, Giuseppe Mascena, Graça Nascimento, Tonfil, Mariana Teles, Rildo de Deus, Val Patriota, Neném de Santa.

Juliana Ferreira

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