quinta-feira, 5 de julho de 2018

Coluna Garanhuns: Memórias e Inspirações - O Festival e sua Origem



Foi em Garanhuns (!) – sim, em Garanhuns (!), mais precisamente no Centro de Convenções Monte Sinai, do Garanhuns Palace Hotel – que, no último dia 28 de junho, procedeu-se para com o anúncio oficial da programação de nosso 28º Festival de Inverno (FIG), saciando-se assim a curiosidade de milhares de “festivaleiros” pelo Nordeste afora. Foi em Garanhuns (!), e não no Recife, como vinha acontecendo nos últimos tempos, e convém que isso seja devidamente ressaltado. 

Por anos, a “Cidade das Flores” se ressentiu de o anúncio de seu mais célebre, dinâmico, longevo e relevante evento ocorrer em terras alheias – fosse no Teatro Arraial Ariano Suassuna, da Fundarpe, fosse no Auditório Joaquim Cardozo, do Museu do Estado. Estive neste último, no ano passado, e pude sentir a diferença: na terrinha, havia pelo menos três vezes mais agentes culturais, autoridades, jornalistas e representantes da sociedade civil. Arriscaria até o palpite de que essa triplicada assistência parecia três vezes mais interessada... 

A reivindicação era, é e continuará sendo justa, justíssima – embora, às vezes, apresente-se, assim como tantas outras relacionadas com a gestão do FIG, algo infantilizada. De qualquer forma, não é por sermos a cidade-sede que nos contentaremos apenas com o secundário papel de cenário do evento; antes de sede, fomos mentores e ainda somos corresponsáveis por essa nobre proposta, hoje alçada a Patrimônio Imaterial de Pernambuco, a qual é fruto da criatividade do garanhuense Marcílio Lins Reinaux, talento de múltiplas faces, e da operosidade do ex-prefeito Ivo Tinô do Amaral. 

Sim, convém relembrar: Foi na transição entre as décadas de 1970 e 1980. Professor de História da Arte da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Reinaux havia participado, na condição de conferencista convidado, dos Festivais de Inverno de Ouro Preto-MG e de Campos do Jordão-SP, e do Festival de Artes de São Cristóvão-SE – surgidos, respectivamente, em 1967, 1970 e 1972. 

Centrado na música clássica erudita, o evento paulista se havia inspirado no Festival de Tanglewood, recanto da cidade de Lenox, no estado norte-americano de Massachusetts; já os festivais mineiro e sergipano, mais variados, haviam despontado no seio das universidades federais daqueles Estados.

Corria o ano de 1981. Em costumeira visita ao amigo e então titular do Executivo, em primeiro mandato (1977-1982), professor Marcílio, após lhe relatar o que havia testemunhado, instou Ivo a realizar um evento congênere na “Terra de Simoa”: “Por que não criar um Festival de Inverno em Garanhuns?”. Em resposta, obteve um entusiástico: “Que ideia fantástica! Vamos a ela!”.

Essa versão me foi confirmada pelo próprio mentor do FIG, de cuja amizade tenho a alegria de privar – ele, que foi meu apresentador da biografia do maestro Fernand Jouteux. “O Festival de Inverno, realmente, é de minha criatividade, Ígor, e Ivo o tornou realidade”, afirmou-me por e-mail. Em artigo para edição de 1992 de “O Monitor”, por sua vez, acrescentava:

Claro que ninguém teve a preocupação de registrar em cartório a ideia, muito menos projetos, ou programas, e outros documentos. Para quê? Afinal, aquilo que fizemos foi para Garanhuns, terra a qual tanto amamos. Nossas iniciativas, ao longo de tantos anos, têm sido despretensiosas, desinteressadas em remuneração e/ou pagamentos fáceis. Fazemos por amor, por desejo de ver a cidade crescer, progredir, alinhar-se entre aquelas de grande desenvolvimento sociocultural do Estado. Na realidade, o legítimo dono do festival é o povo desta terra.

Nos anos 2000, em entrevista para o jornalista Roberto Almeida, Ivo registraria haver sentido, “de pronto, forte motivação de pensar seriamente no assunto”, levando-o, logo, ao conhecimento de seu secretário de Coordenação e Planejamento, Jaime Alves Pinheiro, “um dos que mais demonstrou entusiasmo com a proposta”, inclusive havendo começado “a se articular também para viabilizar o Festival”.

Porém a caminhada até a concretização da ideia estava apenas começando, e ainda tardaria uma década até finalmente lograr ser viabilizada. É que, segundo Ivo, “em meio aos trabalhos e preocupações de um governante, além dos problemas que sempre surgem no âmbito municipal, a proposta ficou adormecida, esperando o tempo certo de ser retomada”.


Os pais do FIG com a colunista social Kitty Lopes: da esquerda para a direita, Marcílio Lins Reinaux, Ivo Tinô do Amaral e Marcílio Reinaux Maia - Foto: Kitty Lopes - Arquivo pessoal

E sê-la-ia, de fato, em princípios de 1990, na segunda administração do político (1989-1992). Em fevereiro daquele ano, o prefeito reeleito agendava uma reunião no Hotel do Sol, unidade do Grupo Tavares Correia na praia de Boa Viagem, no Recife, a fim de tratar do assunto. Entre os presentes, além dele e de sua esposa, Edjenalva; achavam-se o mentor do FIG e sua esposa, Gláucia; o médico Paulo Tavares Correia e sua esposa, Suzana; o supervisor do Centro Cultural, Marcílio Reinaux Maia (sobrinho do mentor); e o jornalista Gildson Oliveira, do “Diário de Pernambuco”. De acordo com Marcílio Maia:

Na reunião, meu tio (Marcílio Lins Reinaux) fez a explanação do que poderia ser o Festival de Inverno de Garanhuns. Inicialmente, a ideia era fazer um festival de música clássica no mês de julho (mês costumeiramente mais frio na cidade), e o ponto principal era explorar as potencialidades do nosso clima. Todos foram unânimes em afirmar que a ideia era muito boa, e o próximo passo seria a busca de apoio para a realização do evento. No dia seguinte à reunião, houve ampla divulgação na mídia pernambucana, sobretudo pela estratégia do prefeito Ivo Amaral de convidar para a reunião seu amigo Gildson Oliveira, à época, editor regional do “Diário”. Fato é que, após aquela reunião, foi lançada oficialmente a ideia do 1º Festival de Inverno de Garanhuns. Mas o Festival, apesar de ter tudo para dar certo, era uma ideia embrionária, e, como tudo que está começando, não teve a adesão imediata de possíveis patrocinadores. Sua primeira versão terminou por ser postergada, para que se buscasse, com mais tempo, o patrocínio desejado.

Passou-se, então, à montagem de uma comissão organizadora, encarregada de se debruçar sobre o assunto e de propor as medidas necessárias à sua materialização. Reparem que a Administração Municipal não declinava de sua iniciativa e de sua responsabilidade enquanto mentora e co-realizadora do evento. Ivo, em discurso ao ser homenageado na 24ª edição do FIG, assim aludiria a essa importante etapa:

Em 1991, criei a Comissão Organizadora do Festival. Juntamos alguns nomes de peso da sociedade e da minha equipe de trabalho à época. Lembro, como hoje, do comprometimento e envolvimento dos secretários municipais de então: os professores Jaime Pinheiro e Luiz Henrique, o economista Fernando Campos, o médico Antônio Alberto Coelho e o coronel Antônio Mendonça; e também do apoio irrestrito dos empresários Paulo Tavares, Luciano Oliveira, Mário Barbosa, Ciro Ferreira Costa e Edson Dourado; dos jornalistas Gildson Oliveira, Marcílio Luna, Manoel Neto, João Alberto e Kitty Lopes; dos vereadores Audálio Ramos, Paulo Gomes e Silvino Duarte; do publicitário Fábio Clemente, além do arquiteto e diretor de cultura Marcílio Reinaux Maia (sobrinho do outro Marcílio Reinaux, o professor e jornalista, que também atuou como consultor da Comissão). Destaco, ainda, nesse processo, o papel das mulheres, e sua visão contemporânea no sentido de fazer desta cidade um centro de ricas manifestações culturais: Edjenalva, minha esposa, Suzana Tavares – esposa de Paulo Tavares –, e as saudosas Juracy Calado e Graciete Branco. Todas elas, fundamentais nessa história.
           
O audacioso projeto previa ações nas áreas de arte-educação, artes plásticas, cinema, dança, fotografia, literatura, música e teatro, as quais contariam com apresentações, cursos, exposições, oficinas e palestras ao longo de uma quinzena. Marcílio Maia foi particularmente decisivo para sua elaboração, encarregando-se, “ele mesmo, como arquiteto, dos aspectos espaciais e de ocupação do que viria a ser o festival”, então distribuído entre o Centro Cultural e o Colégio Diocesano. A par disso, foi o autor da famosa ilustração do beija-flor, que passaria a constituir a identidade visual do FIG.
De posse do projeto, uma pequena comitiva, tendo à testa o próprio prefeito, dirigiu-se ao Recife, para uma audiência especial com o então governador Joaquim Francisco. Arrebatado pelo que via e ouvia, antes mesmo de a explanação do correligionário ser concluída, o governador exclamava: “Prefeito Ivo Amaral, eu compro a ideia!”.
Em entendimentos posteriores, Joaquim pontuaria que a proposta se coadunava com a política cultural do Governo do Estado de interiorização da arte, prometendo aportar relevantíssimos benefícios além-fronteiras de Garanhuns. De fato, concomitantemente à primeira edição, ocorreria um encontro com os secretários de Cultura do Agreste, um fórum de debates tendente a instaurar um permanente intercâmbio cultural entre os municípios da região, bem como a traçar o melhor caminho para a arte ali desenvolvida.
         
Devolvamos a palavra a Ivo:

Em seguida, fui encaminhado ao hoje ministro do Tribunal de Contas da União, José Jorge de Vasconcelos Lima, então secretário de Educação, Cultura e Esportes, e ao presidente da Fundarpe, Rubem Valença Filho, o “Rubinho”. Este ficou maravilhado com o convite e pôs “mãos e coração” na tarefa de viabilização do Festival. O ex-dirigente da Fundação tem suas origens em uma das famílias mais respeitadas no município, os Valença de padre Adelmar e de Amílcar, que foi prefeito duas vezes. Tanto José Jorge quanto Rubinho se desdobraram e fizeram todos os esforços para viabilizar aquele evento de porte, inédito no Estado 

A primeira edição do FIG foi programada para o período de 13 a 28 de julho de 1991, totalizando 16 dias de atividades. Diante do cartaz do evento, exposto na unidade da chocolateria Sete Colinas de Heliópolis, não deve o visitante, todavia, deixar-se enganar: embora excelentes, os exíguos três shows da praça – Zé Ramalho, no dia 13; Alceu Valença, no dia 16; e Dominguinhos, no dia 21 –, já àquele tempo, pouco refletiam da magnitude da proposta.
Vocação infelizmente negligenciada pelas últimas edições, os cursos e oficinas imprimiram a tônica do evento precursor: seis na música, cinco nas artes plásticas, quatro no teatro, três na arte-educação, na dança e na literatura, e um no cinema e na fotografia. Entre os palestrantes, contavam-se os literatos Lucila Nogueira, Luzilá Gonçalves Ferreira e Pedro Américo de Farias; o pintor Montez Magno; e o teatrólogo Marco Camarotti.
Presidida por Rodrigo Pellegrino e sob a coordenação de Paulo Bruscky, a pioneira edição resplendeu, particularmente, na seara das artes plásticas, outra das preteridas pelas últimas edições, cuja curadoria foi confiada a Celso Marconi. Tanto que, da exposição coletiva, participaram cerca de 30 artistas garanhuenses e convidados, entre os quais Abelardo da Hora, Armando Rocha, Ismael Caldas, Lelan, Jader Cysneiros, Marcílio Reinaux, Ronaldo White, Silvio Hansen, Socorrinho Gueiros e Valter Vieira.

Foto: Reprodução/Internet (Não conseguimos identificar o autor)

Os shows do primeiro FIG, cuja organização envolveu mais de 500 pessoas, tiveram lugar em um palco montado ao lado do Centro Cultural, no entorno do qual foi organizada uma feirinha de comidas e bebidas típicas, com o melhor do artesanato local. Assim, Garanhuns abria “a temporada dos festivais”, conforme se noticiava à época, mercê de uma parceria, solidamente estruturada e com contrapartidas recíprocas, firmada entre a Prefeitura Municipal e o Governo Estadual, por meio da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes e da Fundarpe.
Um modelo de gestão que, embora ainda se mantenha em seus contornos elementares, parece carecer de reaprender com as valiosas lições do passado...

*Ígor Cardoso é escritor da Academia de Letras e pesquisador do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns

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