quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Depoimento do governador Eduardo Campos sobre o falecimento do ex-ministro Fernando Lyra


Nós acabamos de ter uma notícia muito triste para Pernambuco e para a política brasileira. Nós perdemos um grande quadro da política pública brasileira, um político que fez uma vida pública com grande amor à liberdade e à democracia. Alguém que ajudou como poucos a transição democrática, um construtor dessa transição com grande talento, nosso companheiro Fernando Lyra. O Estado está decretando luto oficial pela perda do ministro Fernando Lyra. Pernambuco perde um grande quadro político. Um brasileiro que ajudou como poucos a transição democrática, um apaixonado pela vida, pela liberdade e pela democracia. E eu, particularmente, perco um grande amigo. Acabo de falar com (o vice-governador) João (Lyra, irmão de Fernando Lyra) e Márcia (Lyra, esposa de Fernando Lyra), eles devem estar chegando aqui amanhã pela manhã. Ele deve ter seu corpo velado na Assembleia Legislativa, onde o povo pernambucano fará uma justa homenagem a um guerreiro da democracia brasileira.

Pergunta – Qual a imagem que o senhor tem do primeiro contato com o ministro e qual a importância que ele teve para a política?
Eu conheci Fernando quando eu era uma criança. Fernando foi um dos primeiros políticos brasileiros que encontrou com meu avô no exílio. Ele foi portador, muitas vezes, de notícias para a minha família, levando e trazendo correspondência, protegido pela imunidade parlamentar. Na primeira campanha política que fiz, que eu me recordo, tinha Fernando como candidato a deputado federal. Então, a minha relação com ele é de muitos anos. Mesmo nos períodos em que não havia tanto entendimento dele com meu avô, por circunstâncias políticas, eu sempre preservei com Fernando uma relação pessoal muito intensa, fraterna. Vivi momentos muito bonitos e muito duros na política junto com ele. Participou desde o início da construção da nossa primeira candidatura ao Governo, com toda a sua experiência e capacidade de aglutinar. Fernando sobreviveu desde 1978 a uma enfermidade que, à época, diziam que ele iria ter uma sobrevida de cinco anos. E a paixão dele pela vida e pela política o fizeram sobreviver esse tempo todo com muita qualidade de vida, administrando os limites. Até que, de 90 dias para cá, a situação foi se agravando de forma muito rápida. Ele ficou com a vida muito limitada. Mas, durante todo esse período, ele teve uma participação muito intensa na vida pública brasileira. Fernando é, na essência, um político. E fez política com “P” maiúsculo. Faz tanta falta na cena política brasileira gente que faça como Fernando Lyra fez, pensando no País, pensando de forma generosa no seu povo. Sempre preocupado em fazer alianças para facilitar as conquistas do conjunto da população. Era um político bastante instintivo, de uma percepção aguda da hora de fazer. Ele foi um dos grandes tribunos da política brasileira até o final do século passado. Minha geração recorda dos seus discursos nas campanhas pelas Diretas Já e nas campanhas de doutor Tancredo Neves. Sobretudo, teve uma passagem muito bonita pelo Ministério da Justiça. Formou um time de grandes colaboradores, que na época eram pessoas nem tão conhecidas. Joaquim Falcão, Cristovam Buarque, José Paulo Cavalcanti, pessoas que hoje brilham em diversas atividades, mas que trabalhavam com ele enquanto ministro da Justiça. Deu importantes passos juntamente com os artistas brasileiros durante o processo de por fim à censura, como algo que efetivamente constrangia a cena cultural brasileira em plena ditadura. Fez isso com grande capacidade política, em um tempo no qual a democracia ainda estava engatinhando. Então, Fernando teve uma vida bonita e deixa uma enorme saudade.

Pergunta – Governador, o senhor chegou a visitar o ex-ministro em São Paulo. Naquele momento, a saúde dele já estava muito fragilizada, mas ainda havia esperança de uma recuperação?
Na verdade, esperança a gente sempre tem. Sobretudo quem é cristão como eu. Mas a gente sabia. Era um lado querendo ter esperança enquanto há o outro lado da razão. Eu, que já vi pessoas muito queridas naquela situação, percebia, e para isso conversei muito com os médicos. Sabia que era um quadro muito duro. Ao mesmo tempo, uma coisa que me confortou, e eu disse às filhas de Fernando, foi que ele estava muito tranquilo e não parecia ter sofrimento. Isso é tudo que a gente pede para uma pessoa que a gente gosta. Fernando foi salvo várias vezes nesses 30 anos de enfermidade pela tecnologia. Eu dizia a ele que o remédio era inventado em uma semana e na outra ele tava precisando.

Pergunta – Qual foi a causa da morte?
Ele teve um infarto muito grande em 1978, quando não tinha nem 40 anos de idade, e depois teve outro. Tinha uma insuficiência cardíaca muito grave. O organismo se adaptou ao coração bombeando pouco sangue. Mas, nos últimos 90 dias, já não era compatível com a vida humana. Ou seja, ele usava marca-passo e medicamentos para estimular o músculo. De fato, ele já não tinha o músculo cardíaco. Foi isso que levou a agravar a situação nesses dois meses dependendo das máquinas na UTI.

Pergunta – Qual será o horário do velório?
Pela informação que eu recebi de João Lyra, ele chegará amanhã, por volta das 11h, pois tem todo um processo para este transporte. O velório será ao meio-dia, na Assembleia Legislativa, e a decisão da família é realizar o sepultamento às 17h, no cemitério Morada da Paz. O pessoal vem desde antes do Natal em uma luta muito dura.

Informações: ASCOM

 

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