quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Há 57 anos Getúlio Vargas saia da vida para entrar na história


Há exatos 57 anos, o "Pai dos Pobres" saia da vida para entrar para a história. Na madrugada de 24 de agosto de 1954, o então Presidente da República do Brasil, Getúlio Vargas , suicidava-se com um tiro no peito, no seu quarto, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro.

Getúlio Dornelles Vargas, assumiu o poder em 1930, após estar a frente da Revolução de 30, que foi responsável pela queda do governo de Washington Luís. Governou o país durante dois mandatos, tendo como característica principal o nacionalismo com ações que o tornaram popular.
No seu governo foi promulgada a Constituição de 1934. Em 1937 ele fechou o Congresso Nacional e instalou o Estado Novo passando a governar de forma controladora. 

Nesse período criou o DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, que tinha como "missão" controlar as manifestações contrárias ao governo e censurar a imprensa. Foi um perseguidor ferrenho de todos que se opunham ao seu governo , de forma particular os comunistas. 

Se por um lado ele batia, do outro era dono de ações que lhe concederam o apelido de  "Pai dos Pobres". Em 1938, criou o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e estatística), em 1939, instituiu o salário mínimo , a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A carteira profissional , a semana de trabalho de 48 horas e as férias remuneradas foram direitos adquiridos na sua gestão. Em 1940 criou a Companhia Siderúrgica Nacional, em 1942 , criou a Vale do Rio Doce e em 1945 a Hidrelétrica do Vale do São Francisco, saindo do governo em seguida devido a um golpe militar. Em 1950, volta ao poder por meio das eleições democráticas e deu ênfase a política nacionalista com a campanha " Petróleo é Nosso", que se transformaria na Petrobrás. 

Sua política econômica e nacionalista gerou muitos empregos no Brasil e suas medidas na área de trabalho, favorecem os brasileiros até os dias atuais. 

Após 57 anos, é difícil ler a história de Getúlio Vargas e acreditar que um homem como este de pulso e personalidade fortes teria coragem de pegar uma arma e tirar a própria vida.
Sempre o imaginei pegando uma arma e atirando em alguém , ou até mesmo, sendo forçada a escrever o bilhete de suicídio e ser morto em seguida, mas é difícil vislumbrar a cena que terminou com uma manchete que destacava um suicídio e uma carta deixada por ele.

Confiram o último bilhete de Getúlio Vargas na integra. 


Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

(Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas)


Amannda Oliveira


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